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Archive for March, 2008

O que são crenças e desejos?

March 31, 2008 Leave a comment

“La répétition, l’opposition, l’adaptation: ce sont là, je le répète, les trois clefs différentes dont la science fait usage pour ouvrir les arcanes de l’univers. Elle recherche, avant tout, non pas précisement les causes, mais les lois de la r´pétition, les lois de l’opposition, les lois de l’adaptation des phénomènes”(Tarde: 1907:11)

A vida social como uma distribuição mutante, um fluxo de crenças e desejos que pode ser medido quantitativamente: “(…) sob as múltiplas formas que s revestem e sob os objetos heterogêneos que se atribuem, crenças e desejos são constantes e universais, uniformes e homogêneos, susceptíveis de crescer ou diminuir, mas não de variar qualitativamente, sendo, portanto, não só comunicáveis, transmissíveis de um ponto a outro da escala social como também, em princípio mensuráveis, quantificáveis. É isso o que têm de mais característico” . (Vargas, 2000:229)

A idéia de repetição em Tarde vem da imitação que é a propagação do fluxo e do desejo a um número que tende a ser infinito de pessoas, já a oposição marca a intervenção de um fluxo ou onda sobre a outra.

Abordar a repetição como um fenômeno social não diminui a importância da diferença nos estudos sociais, marco inicial da análise sociológica do autor no final do séc. XVIII. Há aqui a importância também da motivação para garantir o movimento de imitação que sempre acontece mediado.

TARDE, Gabriel. (2001) Les lois de l’imitation. 12ª ed. Paris: Les empêcheurs de penser en rond/Éditions du Seuil. Vol. I, Second Série.

___________. (1907) Les lois sociales. Paris: Félix Alcan.

VARGAS, Eduardo Viana. (2000) Antes tarde do que nunca: Gabriel Tarde e a emergência das ciências sociais. Rio de Janeiro. Contra Capa.

A legitimidade do discurso da multidão

March 21, 2008 Leave a comment

Está se passando uma crise nos estudos acadêmicos na área de comunicação no Brasil. A maior parte desta crise emerge ao observarmos o fenômeno da ciência abordar as novas formas de expressão na web através de uma metodologia ou olhar científico que não abarca o movimento da multidão.

Estudar comunidades virtuais e movimentos inseridos nessa forma de ação (tal como blogs) é, antes de tudo, seguir atores e ouvir seus discursos. O estudo de comunidades virtuais passa antes pelo estudo das redes sociais.

Um discussão interessante a esse respeito acontece no Comunix.org

Na web a formação de uma rede emerge através de enunciados e discursos linkados. A questão aqui envolvida é o que valida esse objeto de estudo como acadêmico. Existem diversas formas de coerção e exclusão do discurso é a ciência é claramente uma delas.

Ao fazer do movimento da web uma pesquisa acadêmica é preciso, antes de tudo ter uma postura de humildade, pouco categórica e mais cheia de incertezas. A academia brasileira parece está pouco preparada para os resultados de uma pesquisa nesses parâmetros.

Gabriel Tarde – (Coletivo, Redes Sociais, Multidão) Relações de Poder e a Sociologia das Associações

” – Vidas, (vidas?)
– Almas…”

Um ponto inicial para o estudo das redes sociais pode ser encontrado em Gabriel Tarde (1901) ao expor uma teoria sociológica da opinião e, mesmo antes, em Tarde (1890) quando fala sobre as leis da imitação.

A abordagem deste autor é interessante pois trata da sociedade a partir do coletivo. Apesar de ser inicialmente caracterizado como criador de uma sociologia do individualismo, esta é uma visão extremamente equivocada da obra do autor: composta em sua maioria por coletâneas de artigos científicos.

Ao renegar uma abordagem panorâmica e categorizante da ação social tal como concebidas por Durkheim e Weber, Tarde esboça uma microsociologia que aborda o indivíduo como um lugar inquieto de interação, inserido numa rede social, num movimento de idéias, inovações, num fluxo.

É por isso que autores como Guilles Deleuze e Latour(2007) retomam essa visão da sociedade para lidar com a metáfora rizomática e com a criação de uma teoria dos atores em rede.

A história de Gabriel Tarde é cúmplice das relações de poder dentro de um campo de conhecimento científico. Data da formação da sociologia como campo de estudos científicos, no início do século XIX. Na França, após a guerra com a Prússia, os franceses decidiram investir na educação, como forma de reerguer a nação. Nesse sentido, estudar o social e conceber um conceito de sociedade era fundamental.

Envolvido em uma disputa acadêmica pelo poder do melhor conceito, a visão panorâmica de sociedade de Durkheim prevaleceu.

Entrentato, seus estudos estão sendo retomados. Segundo Tarde, não há uma idéia ou crime cujo responsável possa ser considerado um ser individual. A individualidade ou subjetividade é uma mente inteligente, por onde passam os fluxos das inovações e as imitações.

A multidão para Tarde assume as mesmas perspectivas descritas por Canetti(2005), é móvel, se organiza em diversos movimentos, é o primeiro estado em que a sociedade se apresenta, depois da família.

Público é a multidão organizada pelas opiniões comuns através dos meios de comunicação, no qual nã há contato físico, mas carrega consigo a potencialidade de se organizar e exercer formas de poder. Podemos relacionar esta definição ‘espinoziana’ de Tarde à de Howard Rheingold (2003) ao tratar dos movimentos gerados pelos smart moobs.

De qualquer forma, a questão da opinião e dos estudos da multidão através dos movimentos dos indivíduos é uma proposta muito interessante e nada fácil ao se pensar relações de poder em comunidades virtuais.

Retomar algo do séc. XIX para os dias atuais não é nenhuma atitude arriscada quando se pensa na origem da sociologia e na concepção do que seriam os grupos sociais e seus aspectos de ação coletiva.

Popped Up and Break Free!

Popped Up and Break Free!

Qual a sua definição de grupo social? Nessa controvérsia, Latour (2007) mostra que toda

formação ou grupo social deixa traços de sua ação coletiva. Longe de ser algo estável, um

grupo social é mais um movimento, uma performace na qual:

– O grupo sempre apresenta uma produção cultural.
– É imanente a geração de anti-grupos ao próprio grupo.
– A partir do momento em que seus participantes começam a delimitar e categorizar as ações do grupo é o início do seu fim.
– Os estudiosos de grupos sociais são participantes ativos desses, estando envolvidos e influenciando suas ações.

Grupos sociais são formados por mediadores, dos quais não se tem nenhum controle e são eles mesmos os únicos capazes de dizer a respeito do movimento no qual estão envolvidos. Não parte do sociólogo esse olhar mas do próprio ator.

Segundo Latour, coletivos sociais nem mesmo precisam ser formados por laços humanos.
Uma performance na qual valores considerados positivos como fidelidade, amizade, confiança são capazes de se misturar, se perder…se transformar em negativos, dependendo do tipo de associação.

Este pode não ser um caminho fácil para o delineamento de uma análise social, mas é o caminho da rede, dos atores em suas intrincadas associaçõe, das quais surgem movimentos emergentes.
Ponto importante é a liberdade dada ao ator de informar a sua própria condição no grupo.

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