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Archive for August, 2008

Idéia e Potência em Spinoza

August 27, 2008 Leave a comment

O pouco que aprendi sobre Spinoza, aprendi lendo Deleuze.

Muitas pessoas que falam que ler Deleuze é complicado, mas também o pouco que li, pareceu-me extremamente didático ao tratar do assunto que estava expondo, professor mesmo em seu jeito de escrever.

Portanto, segundo Deleuze:

O livro principal de Spinoza é “Ética” – escrito em latim e disponível para dowload em espanhol no link.

Nele trata-se de:

Affectio: afecção – que significa alteração de faculdade receptiva que revela seu modo próprio de receber e transformar impressões. (De acordo com o Dicionário Aurélio).

Affectus: afeto – que significa (1) afeição por alguém; inclinação, simpatia, amizade, amor:; (2) O elemento básico da afetividade.

O que é uma idéia?

– Toda idéia possui uma realidade objetiva:, a idéia é um modo de pensamento que representa alguma coisa.

Em contraposição: afeto (affectus) é todo pensamento que não representa nada – tipo “sentimentos”, “vontades”.

Por isso todo afeto pressupõe, antes, uma idéia. Para se sentir alguma coisa e saber o que se está sentindo devemos, antes, ter uma idéia do que sentimos.

A idéia vem antes do afeto cronologicamente e logicamente. É o primado dos modos representativos sobre os modos não-representativos.

Entretanto, esse primado não significa uma redução do afeto perante a idéia, pois são duas espécies de modos de pensamento que diferem em natureza. São irredutíveis um ao outro, mas que possuem uma relação “por mais confusa que seja”.

– Toda idéia possui também uma realidade formal que seria a idéia da idéia, seu caráter intrínseco. É a relação da idéia com o que ela representa. Por isso há diferença de idéias, devido à sua realidade formal. A idéia de “Pai” é diferente da idéia de “mesa”, por exemplo. Nesse caráter intrínseco está embutido um grau de realidade ou de perfeição que a idéia envolve nela mesma. Enfim, toda idéia é alguma coisa.

Deleuze comenta sobre o método geométrico de exposição de Spinoza, sob a forma de proposições e demonstrações, nos livros II e III da Ética.

O que podemos tirar de concreto disso?

Acontece que durante a nossa vida, nossas idéias se sucedem constantemente. E de acordo com Spinoza, a vida “trata-se pois de uma série de sucessões, de coexistências de idéias, sucessões de idéias.”

Automaton – as idéias se afirmam em nós e não nós temos idéias.

Vivemos em “variações” perpétuas: – Variação da minha força de existir. Pode ser aumentada/favorecida ou inibida/impedida.

“Vis existente” – força de existir.
“Potentia agendi” – potência de agir.

Na relação idéia e afeto é que acontece a variação na minha força de existir. “(…) há uma variação contínua, sob a forma de aumento – diminuição – aumento – diminuição, da potência de agir ou da força de existir de alguém de acordo com as idéias que ele tem”.

Affectus [afeto] em Spinoza é a variação contínua da força de existir na medida em que essa variação é determinada pelas idéias que se tem.

Outro texto interessante mencionado por Deleuze que não tenho certeza se está na Ética – “Definição geral dos afetos” – Spinoza.

Eu, de maneira humilde, não diria de acordo com as idéias que ele tem, mas de acordo com as idéias que se aproximam ou que emergem nele.

“à medida que uma idéia substitui a outra, eu não cesso de passar de um grau de perfeição a outro, mesmo que [a diferença] seja minúscula, e é essa espécie de linha melódica da variação contínua que irá definir o afeto [affectus] ao mesmo tempo na sua correlação com as idéias e em sua diferença de natureza com as idéias”.

Ou seja, é sempre bom andarmos com pessoas que nos provoquem boas idéias, afeto, senão ficamos tristes e a nossa potência de existir diminui…Isso pode funcionar muito quando pensamos na influência das pessoas nas redes sociais.

“(…) sobretudo não creiam que o affectus, tal como eu o concebo, depende de uma comparação entre as idéias. Ele quer dizer que a idéia pode muito bem ser primeira em relação ao afeto, mas idéia e afeto são duas coisas de natureza diferente; o afeto não se reduz a uma comparação intelectual das idéias, o afeto é constituído pela transição vivida ou pela passagem vivida de um grau de perfeição a outro, na medida em que essa passagem é determinada pelas idéias (…)”

A produção de subjetividade como um espaço onde dá para se viver

August 13, 2008 Leave a comment

Serão os sonhos espaços únicos onde podemos ser? “Sometimes I dream about reallity!” “Mundo querido alivia-me, sonho de solentiname…”

Fala-se da produção da subjetividade na sociedade da informação:

“A questão que volta aqui, de maneira lacinante, consiste em saber (…) O que irá permitir que estas potencialidades desemboquem enfim numa era pós-mídia, que as livre dos valores capitalísticos segregativos e crie condições par o pleno desabrochar dos esboços atuaias de revolução da inteligência, da sensibilidade e da criação?”(p. 187).

No enunciado acima, a voz sobre a produção de subjetividade é de Guattari em 1993.
” Como falar da produção de subjetividade, hoje? Uma primeira constatação nos leva a reconhecer que os conteúdos da subjetividade dependem, cada vez mais, de uma infinidade de sistemas maquínicos. Nenhum campo de opinião, de pensamento, de imagem, de afectos, de narratividade pode, daqui pra frente, ter a pretensão de escapar à influência invasiva da ‘assistência por computador’, dos bancos de dados, da telemática etc…” ( pg. 177).

Estudando a produção colaborativa mediada de um pequeno grupo de alunos da usp, durante a escrita de um texto coletivo, de repente me preocupei em saber se todos que participaram do processo, ao final do trabalho, poderiam contemplar um pouco de si no coletivo. Ou seja, se ocorreu alguma produção de subjetividade da parte de todos ou apenas dos mais envolvidos no processo.

Essa pergunta é interessante na medida que olho para esse grupo pensando mais no processo e na capacidade de as pessoas se afetarem umas às outras enquanto realizam uma atividade coletiva mediada. Eis aqui um problema complexo. Atores em rede e os processos por eles imbricados apresentam muitas fronteiras com a função “merge” dos quais só poderemos saber algo perguntando ou observando e aqui cabe também a nossa própria subjetividade implícita em qualquer movimento que observamos…

De acordo com Guattari (1993), “as atuais máquinas informacionais e comunicacionais não se contentam em veicular conteúdos representativos, mas que concorrem igualmente para a confecção de novos Agenciamentos de enunciação (individuais e/ou coletivos).” e “todos os sistemas maquínicos, seja qual for o domínio ao qual pertencem – técnico, biológico, semiótico, lógico, abstrato – são, o suporte, por si mesmos, de processos proto-subjetivos que eu qualificaria de subjetividade modular” (p. 178).

Desse ponto em diante Guattari compõe um quadro histórico resumido sobre a produção da subjetividade permeada por sistemas maquínicos de diversos campos do conhecimento desde a Idade da Cristandade Européia, passando pela Idade da Desterritorialização Capitalística dos Saberes e das Técnicas, até chegar à Idade da Informática Planetária. Para ele existem três tipo de enunciados/vozes ou caminhos que podemos observar para verificar a produção de subjetividade ao longo da história:

– As vozes do poder: todos os campos de força que cercam, exercem coerção e vigiam os homens.
– As vozes do saber: Campos do conhecimento.
– As vozes de auto-referência: desenvolvem a subjetividade autofundadora de suas próprias coordenadas.

” (…) essas três vozes, embora inscritas no coração da diacronia histórica e duramente encarnadas nas clivagens e segrações sociológicas, não param de se entrelaçar em estranhos balés, alternando lutas de morte e a promoção de novas figuras” (p. 179).

As vozes de auto-referência são as mais contigenciais, mais singulares, abrigam o mundo na finitude humana, são o “ponto de emergência contínua de toda a forma de criatividade”. (p. 181).

De acordo com o autor, o sistema capitalista prescinde da produção de subjetividade para sobreviver. Resta-nos portanto ocupar um espaço na história que depende de nós para acontecer e expor neles os nossos desejos para que essa produção venha a se multiplicar através de muitas vozes, se apropriar do poder e do saber através de expressões únicas.

Esse texto do Guattari estava inserido em uma Coletânea organizada pelo André Parente – Imágem-Máquina: a era das tecnologias do virtual, da década de 90.

Songs:
*The best of Mano Negra – Sonho de Solentiname

Próxima Estación…Esperanza Mr. Bobby