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Transcendência e Imanência na Modernidade

Em Jamais fomos modernos, Bruno Latour (2008), primeira edição de 1994 (São Paulo: Editora 34), define o projeto da modernidade através da transcendência e da imanência, para mostrar os paradoxos de tal projeto histórico:

Antes verifiquemos alguns sentidos das palavras transcedente e imanente de acordo com o dicionário Aurélio.

transcendente
[Do lat. transcendente.]
Adjetivo de dois gêneros.
1.Que transcende; muito elevado; superior, sublime, excelso:
virtudes transcendentes.
2.Que transcende do sujeito para algo fora dele.
3.Que transcende os limites da experiência possível; metafísico. [Sin., nessas acepç.: transcendental.]
4.Filos. Que se eleva além de um limite ou de um nível dado.
5.Filos. Que não resulta do jogo natural de uma certa classe de seres ou de ações, mas que supõe a intervenção de um princípio que lhe é superior. [Opõe-se, nesta acepç., a imanente (2).]
6.Filos. Que ultrapassa a nossa capacidade de conhecer.
7.Filos. Que é de natureza diversa da de uma dada classe de fenômenos. ~ V. curva —, equação —, finalidade —, função —, número — e operação —.
Substantivo masculino.
8.Aquilo que é transcendente.
9.Mat. Número transcendente.

imanente
[Do lat. immanente, part. pres. de immanere.]
Adjetivo de dois gêneros.
1.Que existe sempre em um dado objeto e inseparável dele:
“Noutra passagem das églogas ele [Camões] se serviu se não da própria imagem da morte pelo menos da alusão a um fenômeno equivalente para exprimir em termos de arte o niilismo imanente a todas as experiências de amor.” (Cristiano Martins, Camões, p. 64.)
2.Filos. Que está contido em ou que provém de um ou mais seres, independentemente de ação exterior. [Opõe-se a transcendente (5).]
3.Filos. Diz-se daquilo de que um ser participa, ou a que um ser tende, ainda que por intervenção de outro ser. ~ V. ação — e finalidade —.

Primeiro Paradoxo da Modernidade:

– A natureza não é uma construção nossa: ela é transcendente e nos ultrapassa infinitamente.
– A sociedade é uma construção nossa: ela é imanente à nossa ação.

Segundo Paradoxo da Modernidade:

– Nos construímos artificialmente a natureza no laboratório: ela é imanente.
– Não construímos a sociedade, ela é transcendente.

Constituição da Modernidade:

Primeira Garantia: ainda que sejamos nós que construímos a natureza, ela funciona como se nós não a construíssemos.

Segunda Garantia: ainda que não sejamos nós que construímos a sociedade, ela funciona como se nós a contruíssemos.

Terceira Garantia: a natureza e a sociedade devem permanecer absolutamente distintas; o trabalho de purificação deve permanecer absolutamente distinto do trabalho de mediação.

(LATOUR, 2008, p. 37)

“Hoje, quando as capaciades críticas dos modernos se esgotam, é conveniente medir, pela última vez, sua prodigiosa eficácia.” [página 41]

“Solidamente apoiado sobre a certeza transcendental das leis da natureza, o moderno pôde criticar e desvendar, denunciar e se indignar frente às crenças irracionais e às dominações não justificadas. Solidamente apoiado sobre a certeza de que o homem constrói seu próprio destino, o moderno pôde criticar e desvendar, denunciar e se indignar frente às crenças irracionais, às idelogias científicas, à dominação não justificada dos especialistas que pretendiam traçar limites à ação e à liberdade.” [página 42]

“Por crer na separação total dos humanos e dos não-humanos, e por simultaneamente anular esta separação, a Constituição tornou os modernos invencíveis. Se você os criticar dizendo que a natureza é um mundo construído pelas mãos dos homens, irão mostrar que ela é transcendente e que eles não a tocam. Se você lhes disser que a sociedade é transcendente e que suas leis nos ultrapassam infinitamente, irão dizer que somos livres e que nosso destino está apenas em nossas mãos. Se você fizer uma objeção dizendo que estão usando duplicidade, irão mostrar que não misturaram nunca as leis da natureza e a imprescritível liberdade humana.

Se você acreditar neles e desviar sua atenção, irão aproveitar para introduzir milhares de objetos naturais no corpo social, dotando-o da solidez das coisas naturais. Se você se virar bruscamente, como na brincadeira de infantil ‘estátua’!, eles ficarão paralisados, com ar inocente, como se não tivessem se mexido: à esquerda, as coisas em si; à direita, a sociedade livre dos sujeitos falantes e pensantes. Tudo acontece no meio, tudo transita entre as duas, tudo ocorre por mediação, por tradução e por redes, mas este lugar não existe, não ocorre. É o impensado, o impensável dos modernos. Qual outra forma de estender os coletivos seria melhor do que juntar tanto a transcendência da natureza quanto a total liberdade humana, incorporando ao mesmo tempo a natureza e limitando de forma absoluta as margens de liberdade? Isto permite, na verdade, que se faça tudo e também o contrário” [páginas 42 e 43]

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