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A Sociologia das Conversações

January 27, 2009 Leave a comment

TARDE, Gabriel. A opinião e as massas. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

Gabriel Tarde: filósofo, sociólogo e criminologista francês. (1843-1904).

Esse livro foi escrito em 1901. Foi inicialmente apresentado ao público sob a forma de artigos na Revista Revue de Paris, em 15 de julho e 1 de agosto de 1898 sob o título – “O público e a multidão” e posteriormente em 15 de agosto e 1 de set de 1899, na mesma revista, “A opinião e a conversação”.

A opinião e as massas representa um marco na teoria sociológica do grande número. Essa visão sociológica se aproxima muito do movimento das pessoas na rede. Tarde foi o primeiro sociólogo a pensar a organização da sociedade por meio do compartilhamento de um comum proveniente dos veículos de comunicação (naquele tempo, a imprensa).

A CONVERSAÇÃO

” Mas a imprensa é somente uma das cuasa da opinião, e uma das mais recentes. (…) sua pequena fonte invisível qu eescoa em todo tempo e em todo lugar com um fluxo desigual: a conversação. (TARDE, 2005, p.75).

“(…) a conversação, se conseguisse progredir sem esses alimentos, o que também é difícil conceber, poderia, a long prazo suprir numa certa medida o papel social da tribuna e da imprensa como formadora da opinião. Por conversação, entendo todo diálogo sem utilidade direta e imediata, em que se fala sobretudo por falar, por prazer, por distração, por polidez. (…) Ela não exclui o flerte mundano nem as conversas amorosas em geral, apesar da transparência freqüente de seu objetivo que não as impede de serem agradáveis por si mesmas. (…) todas as conversas de luxo inclusive entre bárbaros e selvagens.” (TARDE, 2005, p. 76).

“Ao colocá-los em contato, faz com que se comuniquem por uma ação tão irresistível quanto inconsciente. Por conseguinte, ela é o agente mais poderoso da imitação, da propagação dos sentimentos, das idéias, dos modos de ação. (…) Diz-se com razão, de um bom conversador, que ele é um sedutor no sentido mágico da palavra.” (TARDE, 2005, p. 77).

“A sociologia da conversação. (…) As conversações diferem muito conforme a natureza dos conversadores, seu grau de cultura, sua situação social, sua origem rural ou urbana, seus hábitos profissionais, sua religiao. Diferem quanto assuntos tratados, enquanto tom, enquanto cerimonial, enquanto rapidez de elocução, enquanto duração. (…) Parece que, à medida que nos civilizamos mais, caminhamos e flamos mais depresa.” (TARDE, 2005, p. 78).

“A criação da fala é incompreensível se não admitirmos que a língua foi o primeiro luxo estético do homem, o primeiro grande emprego de seu gênio inventivo, que foi amada e adorada por si mesma, mais ainda como um objeto de arte ou como um brinquedo do que como um instrumento. A fala não teria nascido do canto, do canto dançado, do mesmo modo que a escrita, bem mais tarde, nasceu do desenho? É provável que, antes de se falarem quando se encontravam nas horas vagas, os homens primitivos tenham começado por cantar juntos ou por se cantarem um ao outro. Pode-se perceber um resíduo remanescente dessas conversações musicais nos cantos alternados dos pastores de églogas e também no costume ainda vivo dos esquimós de cantar contra alguém ao invés de ridicularizá-lo. Seus cantos satíricos, igualmente alternados, duelos inovensivos e prolongados, desempenham o mesmo papel que as discussões animadas entre nós.” (TARDE, 2005, p. 82).

” Para compreender bem, as transformações históricas da conversação, é essencial analisar mais de perto suas causas. Ela tem causas lingüísticas: uma língua rica, harmoniosa, matizada, predispõe à tagarelice. Ela tem causas religiosas: seu curso modifica-se conforme a religião nacional limite mais ou menos a liberdade das conversas, proíba com maior ou menor severidade o galanteio, a maledicência, a “libertinagem de espírito”, oponha-se ou não ao progresso das ciências e à instrução popular, imponha ou não a regra do silêncio a certos grupos, monges cristãos ou confrarias pitagóricas, e ponha em moda este ou aquele tema de discussão teológica: a encadernação, a graça, a imaculada conceição. Ela tem causas políticas: numa democracia, alimenta-se dos temas que a tribuna ou a vida eleitoral lhe fornecem; numa monarquia absoluta , de temas de crítica literária ou de observações psicológicas, na falta de outros mais importanes que a lei de lesa-majestade torna perigosos. Ela tem cuasas econômicas, das quais já indiquei a principal: o ócio, a satisfação de necessidades mais urgentes. Não há, em uma palavra, um aspecto da atividade social que não seja em relação íntima com ela e cujas modificações não a modifiquem.” (TARDE, 2005, p. 90-91).

“Percebemos, deste modo a ação imensa que tiveram sobre ela as invenções capitais de nosso século. Graças a estas, a imprensa pôde inundar o mundo inteiro e embebê-lo até as últimas camadas populares. E a maior força que rege as conversações modernas é o livro, é o jornal. Antes do dilúvio de ambos, nada era mais diferente, de uma aldeia a outra, de um país a outro, que os temas, o tom, o andamento das conversas, nem mais monótono, em cada um deles, de um tempo a outro. No presente ocorre o inverso. A imprensa unifica e vivifica as conversações, uniformiza-as no espaço e diversifica-as no tempo. Todas as manhãs, os jornais servem a seu público a conversação do dia. Pode-se estar mais ou menos certo a cada instante do tema das conversas entre os frequentadores de um círculo, de uma sala de fumar, dos saguões dos tribunais. (…) Essa similitude crescente das converesações simultâneas num domínio geográfico cada vez mais vasto é uma das caracterísitcas mais importantes de nossa época, pois explica em grande parte o poder crescente da opinião contra a tradição e a própria razão; e essa dessemelhança crescente das conversações sucessivas nos explica do mesmomodo a mobilidade da opinião, contrpeso de seu poder.” (TARDE, 2005, 95).

“Do ponto de vista político, a conversação é, antes da imprensa, o único obstáculo aos governos, o abrigo inexpugnável da liberdade; cria as reputações reputações e os prestígios, determina a glória e, através dela, o poder. Tende a niverlar os conversadores assimilando-os e destrói as hierarquias à força de exprimi-las. Do ponto de vista econômico, uniformiza os juízos sobre a utilidade das diversas riquezas, cria e especifica a idéia de valor, estabelece uma escala e um sistema de falores. Assim, essa tagarelice supérflua, simples perda de tempo para os economistas utiliários, é na realidade o agente econômico mais indispensável, uma vez que, sem ela, não haveria opinião e sem opinião não haveria valor, noção fundamental da economia política e, para falar a verdade, de muitas outras ciências sociais.” ( TARDE, 2005, 113).

“O papel político da conversação não é menor que seu papel linguístico. Há um vínculo estreito entre o funcionamento da conversação e as mudanças da opinião, de que dependem as vicissitudes do poder. Onde a opinião muda pouco, lentamente permanece quase imutável, as conversações costumas ser raras, tímidas, girando num círculo estreito de mexericos. Onde a opinião é móvel, agitada, onde passa de um extremo a outro, as conversações são frequentes, ousadas, emancipadas. Onde a opinião é fraca, é porque se conversa sem animação; onde ela é forte, é porque se discute muito ; onde é violenta, é porque há paixão em discutir; onde é exclusiva, exigente, tirânica, é porque os participantes estão às voltas com alguam obsessão coletiva; onde é liveral, é porque os assuntos de conversa são variados, livres, alimentados inteiramente por idéias gerais. Temos informações sobre a conversação das épocas passadas; mas algumas delas nos permitem saber em que medida a opinião exerceu uma influência decisiva, aqui ou ali, nesta ou naquela nação, nesta ou naquela classe, sobre as decisões do poder político ou judiciário. Sabemos, por exemplo, que os governos de Atenas foram bem mais que os de Esparta, governos de opinião; donde teríamos o direito de concluir, se não soubéssemos disso por outras forntes, que os atenienses eram bem amsi conservadores que os lacedemônios.” ( TARDE, 2005, 118-119).

“A evolução do poder explica-se portanto pela evolução da opinião, que se explica pela evolução da conversação, que se explica por sua vez pela série de suas diferentes origens: ensinamentos da família, escola, aprendizagem, pregações, discursos políticos, livros, jornais. E a imprensa periódica alimenta-se das informações do mundo inteiro que versam sobre tudo o que se produz de excepcional, de genial, de inventivo, de novo.” (TARDE, 2005, 120).

” Politicamente, não são tanto as conversações e discussões parlamentares, e sim as conversações e discussões privadas, que importa considerar.” (TARDE, 2005, 121).

“Só que a moral discutida pelos contemporâneos de Horácio, epicuristas tingidos de estoicismo, é uma moral mais individual do que social, pois é para fortalecer, para sanear o indivíduo tomado à parte, separado de seu grupo, que se dedicam os adeptos tanto de Zenão como de Epicuro”. (TARDE, 2005, p. 124).

“O silêncio entre desconhecidos que se econtram parace naturalmente uma inconveniência, do mesmo modo que o silêncio entre pessoas que se conhecem é um sinal de desentendimento. ” (TARDE, 2005, p. 126).

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Univocidade, Diferença e Distribuição – a questão das hierarquias e do poder nômade

January 7, 2009 1 comment

A univocidade do Ser não exclui a diferença em suas representações. O unívoco é o plano da ação. A diferença está na distribuição de poder numa mesma circunstância de imersão onde acontece uma partilha nômade, dependente do movimento da apropriação do espaço. Aquele que ‘salta’.

A rede proporciona saltos, admite a potência da repetição para gerar movimentos novos. Os espaços são importantes, principalmente pensar as fronteiras com seu caos aparente, suas lutas e mortes, vazadas, permitem pensar  inovações,  já que elas não se propagam dos centros e nem das hierarquias estabelecidas.

Pensar em inovação e comunidades, a partir do ponto de vista da gestão da organização, é quase apontar uma contradição. A inovação vem da experiência do uso, da repetição, e não do raciocínio da analogia, da organização ou do mando. A distância é tão grande entre a gestão e o público que são necessárias pesquisas de cunho antropológico para mediação ou tradução de situações entre as partes. Se a gestão depende da inovação para se manter no mercado,  com quem está o poder então…

Tem um antropólogo e historiador amigo meu que diz: “- Quando vira igreja, perde-se o melhor da fé…sua capacidade genuína de transformação da realidade.” Talvez sistematizar processos não seja uma boa solução quando se trata de “pesquisa e desenvolvimento” ou “processos de inovação”, mas observá-los, sim, obervar os fenômenos sociais e perceber neles o seu movimento constante, as crenças e os desejos de seus atores, expressos em nuances silenciosos de suas atividades diárias…

Trechos de: DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. 2 ed. Tradução: Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2006.

Presses Universitaires de France, 1968 – Différence et Répetition

“Só houve uma proposição ontológica: o Ser é unívoco”. (DELEUZE, 2006, p. 65).

“O importante é que se possa conceber vários sentidos formalmente distintos, mas que se reportam ao ser como a um só designado, ontologicamente uno. (…) Com efeito, o essencial na univocidade não é que o Ser se diga num único sentido. É que ele se diga num único sentido de todas as suas diferenças individuantes ou modalidades intrínsecas. O ser é o mesmo para todas estas modalidades, mas estas modalidades não são as mesmas. ” (DELEUZE, 2006, p. 66).

As diferenças entre hierarquia e distribuição de poder no ser unívoco: Os Dois Tipos de Distribuição

“Sem dúvida, ainda há no ser unívoco uma hierarquia e uma distribuição concernentes aos fatores individuantes e seu sentido. Mas distribuição e mesmo hierarquia têm duas acepções completamente diferentes, sem conciliação possível (…)” (DELEUZE, 2006, p. 67).

“Há por outro lado, uma distribuição totalmente diferente desta, uma distribuição que é preciso chamar de nomádica, um nomos nômade, sem propriedade, sem cerca, sem medida. Aí já não há partilha de um distribuído, mas sobretudo repartição daqueles que se distribuem num espaço aberto ilimitado ou, pelo menos, sem limites precisos. Nada cabe ou pertence a alguém, mas todas as pessoas estão dispostas aqui e ali, de maneira a cobrir o maior espaço possível. Mesmo quando se trata de seriedade da vida, dir-se-ia haver aí um espaço de jogo, uma regra de jogo, em oposição ao espaço como ao nomos sedentários. Preencher um espaço, partilhar-se nele, é muito diferente de partilhar o espaço. É uma distribuição de errância e mesmo de ‘delírio’, em que as coisas se desdobram em todo o extenso de um ser unívoco e não-partilhado. Não é o ser que se partilha segundo as exigências da representação; são todas as coisas que se repartem nele na univocidade da simples presença (Uno-Todo). Tal distribuição é mais demoníaca que divina, pois a particularidade dos demônios [segundo o pensamento filosófico grego] é operar nos intervalos entre os campos de ação dos deuses, como saltar por cima das barreiras ou das cercas confundindo as propriedades. (…) O salto testemunha, aqui, os distúrbios subversivos que as distribuições nômades introduzem nas estruturas sedentárias da representação. O mesmo deve ser dito da hierarquia. Há uma hierarquia que mede os seres segundo seus limites e segundo seu grau de proximidade ou distanciamento em relação a um princípio. Mas há também uma hierarquia que considera as coisas e os seres do ponto de vista da potência: não se trata de graus de potência absolutamente considerados, mas somente de saber se um ser ‘salta’ eventualmente, isto é, ultrapassa seus limites, indo até o extremo daquilo que pode, seja qual for o grau. Dir-se-á que ‘até o extremo’ define ainda um limite. Mas o limite, (…) já não designa aqui que mantém a coisa sob uma lei, nem que a termina ou a separa, mas, ao contrário, aquilo a partir do que ela se desenvolve e desenvolve toda a sua potência; a hybris deixa de ser simplesmente condenável e o menor torna-se igual ao maior, desde que não seja separado daquilo que pode. Esta medida envolvente é a mesma para todas as coisas, a mesma também para a substância, a qualidade, a quantidade, etc., pois ela forma um só máximo, em que a diversidade desenvolvida de todos os graus atinge a igualdade que a envolve. Esta medida ontológica está mais próxima da desmesura das coisas que da primeira medida; esta hierarquia ontológia está mais próxima da hybris e da anarquia dos seres que da primeira hierarquia. Ela é o monstro de todos os demônios. Então, as palavras ‘Tudo é igual’ podem ressoar, mas como palavras alegres, com a condição de se dizê-las do que não é igual neste Ser igual unívoco: o ser igual está imediatamente presente em todas as coisas, sem intermediário nem mediação, se bem que as coisas se mantenham desigualmente neste ser igual. Mas todas estão numa proximidade absoluta ali onde a hybris as situa e, grande ou pequena, inferior ou superior, nenhuma delas participa mais ou menos do ser ou o recebe por analogia. Portanto, a univocidade do ser significa também a igualdade do ser. O Ser unívoco é, ao mesmo tempo, distribuição e anarquia coroada.” (DELEUZE, 2006, p. 68 e 69).