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Univocidade, Diferença e Distribuição – a questão das hierarquias e do poder nômade

A univocidade do Ser não exclui a diferença em suas representações. O unívoco é o plano da ação. A diferença está na distribuição de poder numa mesma circunstância de imersão onde acontece uma partilha nômade, dependente do movimento da apropriação do espaço. Aquele que ‘salta’.

A rede proporciona saltos, admite a potência da repetição para gerar movimentos novos. Os espaços são importantes, principalmente pensar as fronteiras com seu caos aparente, suas lutas e mortes, vazadas, permitem pensar  inovações,  já que elas não se propagam dos centros e nem das hierarquias estabelecidas.

Pensar em inovação e comunidades, a partir do ponto de vista da gestão da organização, é quase apontar uma contradição. A inovação vem da experiência do uso, da repetição, e não do raciocínio da analogia, da organização ou do mando. A distância é tão grande entre a gestão e o público que são necessárias pesquisas de cunho antropológico para mediação ou tradução de situações entre as partes. Se a gestão depende da inovação para se manter no mercado,  com quem está o poder então…

Tem um antropólogo e historiador amigo meu que diz: “- Quando vira igreja, perde-se o melhor da fé…sua capacidade genuína de transformação da realidade.” Talvez sistematizar processos não seja uma boa solução quando se trata de “pesquisa e desenvolvimento” ou “processos de inovação”, mas observá-los, sim, obervar os fenômenos sociais e perceber neles o seu movimento constante, as crenças e os desejos de seus atores, expressos em nuances silenciosos de suas atividades diárias…

Trechos de: DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. 2 ed. Tradução: Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2006.

Presses Universitaires de France, 1968 – Différence et Répetition

“Só houve uma proposição ontológica: o Ser é unívoco”. (DELEUZE, 2006, p. 65).

“O importante é que se possa conceber vários sentidos formalmente distintos, mas que se reportam ao ser como a um só designado, ontologicamente uno. (…) Com efeito, o essencial na univocidade não é que o Ser se diga num único sentido. É que ele se diga num único sentido de todas as suas diferenças individuantes ou modalidades intrínsecas. O ser é o mesmo para todas estas modalidades, mas estas modalidades não são as mesmas. ” (DELEUZE, 2006, p. 66).

As diferenças entre hierarquia e distribuição de poder no ser unívoco: Os Dois Tipos de Distribuição

“Sem dúvida, ainda há no ser unívoco uma hierarquia e uma distribuição concernentes aos fatores individuantes e seu sentido. Mas distribuição e mesmo hierarquia têm duas acepções completamente diferentes, sem conciliação possível (…)” (DELEUZE, 2006, p. 67).

“Há por outro lado, uma distribuição totalmente diferente desta, uma distribuição que é preciso chamar de nomádica, um nomos nômade, sem propriedade, sem cerca, sem medida. Aí já não há partilha de um distribuído, mas sobretudo repartição daqueles que se distribuem num espaço aberto ilimitado ou, pelo menos, sem limites precisos. Nada cabe ou pertence a alguém, mas todas as pessoas estão dispostas aqui e ali, de maneira a cobrir o maior espaço possível. Mesmo quando se trata de seriedade da vida, dir-se-ia haver aí um espaço de jogo, uma regra de jogo, em oposição ao espaço como ao nomos sedentários. Preencher um espaço, partilhar-se nele, é muito diferente de partilhar o espaço. É uma distribuição de errância e mesmo de ‘delírio’, em que as coisas se desdobram em todo o extenso de um ser unívoco e não-partilhado. Não é o ser que se partilha segundo as exigências da representação; são todas as coisas que se repartem nele na univocidade da simples presença (Uno-Todo). Tal distribuição é mais demoníaca que divina, pois a particularidade dos demônios [segundo o pensamento filosófico grego] é operar nos intervalos entre os campos de ação dos deuses, como saltar por cima das barreiras ou das cercas confundindo as propriedades. (…) O salto testemunha, aqui, os distúrbios subversivos que as distribuições nômades introduzem nas estruturas sedentárias da representação. O mesmo deve ser dito da hierarquia. Há uma hierarquia que mede os seres segundo seus limites e segundo seu grau de proximidade ou distanciamento em relação a um princípio. Mas há também uma hierarquia que considera as coisas e os seres do ponto de vista da potência: não se trata de graus de potência absolutamente considerados, mas somente de saber se um ser ‘salta’ eventualmente, isto é, ultrapassa seus limites, indo até o extremo daquilo que pode, seja qual for o grau. Dir-se-á que ‘até o extremo’ define ainda um limite. Mas o limite, (…) já não designa aqui que mantém a coisa sob uma lei, nem que a termina ou a separa, mas, ao contrário, aquilo a partir do que ela se desenvolve e desenvolve toda a sua potência; a hybris deixa de ser simplesmente condenável e o menor torna-se igual ao maior, desde que não seja separado daquilo que pode. Esta medida envolvente é a mesma para todas as coisas, a mesma também para a substância, a qualidade, a quantidade, etc., pois ela forma um só máximo, em que a diversidade desenvolvida de todos os graus atinge a igualdade que a envolve. Esta medida ontológica está mais próxima da desmesura das coisas que da primeira medida; esta hierarquia ontológia está mais próxima da hybris e da anarquia dos seres que da primeira hierarquia. Ela é o monstro de todos os demônios. Então, as palavras ‘Tudo é igual’ podem ressoar, mas como palavras alegres, com a condição de se dizê-las do que não é igual neste Ser igual unívoco: o ser igual está imediatamente presente em todas as coisas, sem intermediário nem mediação, se bem que as coisas se mantenham desigualmente neste ser igual. Mas todas estão numa proximidade absoluta ali onde a hybris as situa e, grande ou pequena, inferior ou superior, nenhuma delas participa mais ou menos do ser ou o recebe por analogia. Portanto, a univocidade do ser significa também a igualdade do ser. O Ser unívoco é, ao mesmo tempo, distribuição e anarquia coroada.” (DELEUZE, 2006, p. 68 e 69).

  1. January 9, 2009 at 12:11 am

    Cacau,
    seu blog parece que será como um cicerone de um universo, multiverso, portal no qual já passei mais ainda não cheguei.

    Li. Re-lerei. Quem sabe um dia cheguemos a conversar numa sintonia paralela.

    Achar a questão da Inovação em Deleuze me é totalmente estimulante. Ainda que isto no seu post é apenas um detalhe.

    Obrigado

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