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Transcendência e Imanência na Modernidade

October 23, 2008 Leave a comment

Em Jamais fomos modernos, Bruno Latour (2008), primeira edição de 1994 (São Paulo: Editora 34), define o projeto da modernidade através da transcendência e da imanência, para mostrar os paradoxos de tal projeto histórico:

Antes verifiquemos alguns sentidos das palavras transcedente e imanente de acordo com o dicionário Aurélio.

transcendente
[Do lat. transcendente.]
Adjetivo de dois gêneros.
1.Que transcende; muito elevado; superior, sublime, excelso:
virtudes transcendentes.
2.Que transcende do sujeito para algo fora dele.
3.Que transcende os limites da experiência possível; metafísico. [Sin., nessas acepç.: transcendental.]
4.Filos. Que se eleva além de um limite ou de um nível dado.
5.Filos. Que não resulta do jogo natural de uma certa classe de seres ou de ações, mas que supõe a intervenção de um princípio que lhe é superior. [Opõe-se, nesta acepç., a imanente (2).]
6.Filos. Que ultrapassa a nossa capacidade de conhecer.
7.Filos. Que é de natureza diversa da de uma dada classe de fenômenos. ~ V. curva —, equação —, finalidade —, função —, número — e operação —.
Substantivo masculino.
8.Aquilo que é transcendente.
9.Mat. Número transcendente.

imanente
[Do lat. immanente, part. pres. de immanere.]
Adjetivo de dois gêneros.
1.Que existe sempre em um dado objeto e inseparável dele:
“Noutra passagem das églogas ele [Camões] se serviu se não da própria imagem da morte pelo menos da alusão a um fenômeno equivalente para exprimir em termos de arte o niilismo imanente a todas as experiências de amor.” (Cristiano Martins, Camões, p. 64.)
2.Filos. Que está contido em ou que provém de um ou mais seres, independentemente de ação exterior. [Opõe-se a transcendente (5).]
3.Filos. Diz-se daquilo de que um ser participa, ou a que um ser tende, ainda que por intervenção de outro ser. ~ V. ação — e finalidade —.

Primeiro Paradoxo da Modernidade:

– A natureza não é uma construção nossa: ela é transcendente e nos ultrapassa infinitamente.
– A sociedade é uma construção nossa: ela é imanente à nossa ação.

Segundo Paradoxo da Modernidade:

– Nos construímos artificialmente a natureza no laboratório: ela é imanente.
– Não construímos a sociedade, ela é transcendente.

Constituição da Modernidade:

Primeira Garantia: ainda que sejamos nós que construímos a natureza, ela funciona como se nós não a construíssemos.

Segunda Garantia: ainda que não sejamos nós que construímos a sociedade, ela funciona como se nós a contruíssemos.

Terceira Garantia: a natureza e a sociedade devem permanecer absolutamente distintas; o trabalho de purificação deve permanecer absolutamente distinto do trabalho de mediação.

(LATOUR, 2008, p. 37)

“Hoje, quando as capaciades críticas dos modernos se esgotam, é conveniente medir, pela última vez, sua prodigiosa eficácia.” [página 41]

“Solidamente apoiado sobre a certeza transcendental das leis da natureza, o moderno pôde criticar e desvendar, denunciar e se indignar frente às crenças irracionais e às dominações não justificadas. Solidamente apoiado sobre a certeza de que o homem constrói seu próprio destino, o moderno pôde criticar e desvendar, denunciar e se indignar frente às crenças irracionais, às idelogias científicas, à dominação não justificada dos especialistas que pretendiam traçar limites à ação e à liberdade.” [página 42]

“Por crer na separação total dos humanos e dos não-humanos, e por simultaneamente anular esta separação, a Constituição tornou os modernos invencíveis. Se você os criticar dizendo que a natureza é um mundo construído pelas mãos dos homens, irão mostrar que ela é transcendente e que eles não a tocam. Se você lhes disser que a sociedade é transcendente e que suas leis nos ultrapassam infinitamente, irão dizer que somos livres e que nosso destino está apenas em nossas mãos. Se você fizer uma objeção dizendo que estão usando duplicidade, irão mostrar que não misturaram nunca as leis da natureza e a imprescritível liberdade humana.

Se você acreditar neles e desviar sua atenção, irão aproveitar para introduzir milhares de objetos naturais no corpo social, dotando-o da solidez das coisas naturais. Se você se virar bruscamente, como na brincadeira de infantil ‘estátua’!, eles ficarão paralisados, com ar inocente, como se não tivessem se mexido: à esquerda, as coisas em si; à direita, a sociedade livre dos sujeitos falantes e pensantes. Tudo acontece no meio, tudo transita entre as duas, tudo ocorre por mediação, por tradução e por redes, mas este lugar não existe, não ocorre. É o impensado, o impensável dos modernos. Qual outra forma de estender os coletivos seria melhor do que juntar tanto a transcendência da natureza quanto a total liberdade humana, incorporando ao mesmo tempo a natureza e limitando de forma absoluta as margens de liberdade? Isto permite, na verdade, que se faça tudo e também o contrário” [páginas 42 e 43]

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Bruno Latour, a crise da crítica e o projeto perdido da modernidade:

October 12, 2008 2 comments

Esse post fica melhor acompanhado do Empty – do Tryad

“Os críticos desenvolveram três repertórios distintos para falar de nosso mundo: a naturalização, a socialização, a desconstrução. Digamos, de forma rápida e sendo um pouco injustos, Changeux, Boudieu, Derrida. Quando o primeiro fala de fatos naturalizados, não há mais sociedade, nem sujeito, nem forma do discurso. Quando o segundo fala de poder sociologizado, não há mais ciência, nem técnica, nem texto, nem conteúdo. Quando o segundo fala de poder sociologizado, não há mais ciência, nem técnica, nem texto, nem conteúdo. Quando o terceiro fala de efeitos de verdade, seria um atestado de grande ingenuidade acreditar na existência real dos neurônios do cérebro ou dos jogos de poder. Cada uma destas formas de crítica é potente em si mesma, mas não pode ser combinada com as outras. Podemos imaginar um estudo que tornasse o buraco de ozônio algo naturalizado, sociologizado e desconstruído?” (LATOUR, 2008, p. 11)

Na cidade, havia um grupo de dança que estava apresentando a peça “Capitães da Areia”, baseado na obra de Jorge Amado. Todos sabiam o dia e a hora do espetáculo. Aquela era uma noite de lua cheia, e fui assistir também. Na parte mais sensual, quando o personagem “Gato” tem uma noite de amor com a prostituta Dalva, ouvi uma música do maestro Villa Lobos que nunca mais consegui esquecer…Ao final, entrevista no telão com Gilberto Gil que havia composto algumas músicas especialmente para a apresentação.

Fiquei pensando o que um grupo mineiro tinha que se meter a apresentar um espetáculo de uma autor baiano, com composições do Gilberto Gil e músicas do villas.

“Olha, ainda bem que acabou, eu não aguentava mais aquelas oficinas…duravam o final de semana inteiro. A gente chorava e a gente ria, sentia raiva depois, todos os sentimentos juntos…não foi fácil”. (depoimento de uma das bailarinas).

“Mas ficou muito lindo, ficou uma coisa profissional mesmo!” (resposta da jornalista e prima à bailarina, no camarim).

Fui embora pensando naquilo, com a seriedade que qualquer pessoa de vinte anos julga ter. O espetáculo havia ficado realmente bom. Rapidamente, aquele pequeno grupo iniciou turnê pelo Brasil e em países da Europa como Suécia e Alemanha.

Um dia tudo acabou, era hora de falar de outra coisa. Algumas das pessoas o grupo que conheço continuam dançando até hoje. Outras pararam…e nunca mais foram iguais.

Na estética das redes, em associações sociotécnicas em que vivemos, a incerteza é o pattern que vigora… foi assim em todas as épocas históricas, mas agora não podemos evitar de ver, caiu o medo da incerteza pela realidade que ela desperta e confronta em nossas fronteiras.

Admitir esse movimento, principalmente nas relações, pode ser terrível e representar uma grande ameaça para alguns…mas como? se sempre foi assim…no fundo, a metáfora Baumática do “amor líquido” e da “modernidade líquida” e sejam quais líquidos mais forem, só fazem retratar algo que nunca existiu: o amor moderno e a sociedade moderna.

Fontes e Críticas:

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos.Tradução: Carlos Irineu da Costa. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 2008.

Attention and Fragmentation

September 29, 2008 Leave a comment

Estou lendo um livro que me foi emprestado de um amigo muito querido. Nele há um artigo oriundo de palestras recentes cujo tema era a sociedade e os links. Esse artigo fala sobre a economia da atenção nos dias atuais. Aí vai uma provocação aos jornalistas, um grande abraço, Cacau:

“Recent studies in the production of online newspapers suggest that the Internet, coupled with competitive journalistic practices, actually contribuites to the homogenizations of news content. It appears that journalists use the online environment to continuously monitor their competition. Not wanting to be scooped and relying heavily on commonly available wire services and electronic media, newspapers increasingly replicate the same stories. One can imagine a similar dynamic operating in the bogosphere. In fact, Benkler’s analysis of how meritorious news and opinion percolate to the A-list blogs seems to be a related phenomenon. For him, this is the mechanism that overcomes the ‘Babel objection’ about the democratizing effects of the Internet. It does suggest, however, that public attention is not as fragmented as it might at first seem.” (página 31)

WEBSTER, James G. (2008) Structuring a marketplace of attention. In: The hyperlinked society: questioning connections in the digital age. Ann Arbor: The University of Michigan Press, 2008.

The Power of Links

September 24, 2008 Leave a comment

For research purpose: some considerations about the social meaning of the hyperlink, an interesting point that has the chance do inaugurate another sociologies theories.

Like Bruno Latour told before in Ressemble the social ( 2005) the therories of sociology can be rethinked through the way actors are linked on social networks in opposition of the place people occuped in society. This is what he called “sociology of association” that means no matter where you are in society or in your city, what matters is your connections and relationships.

It remember us that the study of networks is about a study of people behavior, nowadays, not only in specific place that people are in society, but the act of this people among then, and among a wall os diversity places that they can become in contact through the web.

To fullfil this kind of studies, the studies of associations of people, it’s heavly important to think about the links beyong their ways, among then, how they establish their own networks, with who they are talking. Like a cyber brasilian thinker says: “networks are made of people, and people who are talking with each other” Dimantas (2006).

I’m reading now a book that talk about links and their social function, The Hyperlinked Society, borrowed from a good friend, and I would like do share some information and questions exposed into it with others researchers that, at this moment, are interested in this theme or objetc:

” Links have morphed beyond their initial look to function as hot areas (where a picture or graphic are turned into a link), in-line links ( where thumbnail photos or other elements are connected from one site to another automatically), tags (that allow people to categorize links), API (application programming interface) mapping “mashups” (where people use data from open-source programs to make maps with links that suit their purposes), and RSS data feeds (that enabel users to connect to changing information from sites without going to then directly). And we also see the creation of links that are based not on idividual nomination but on the aggregation of opinions. A hyperlink on Google, for example, is the product of a complex computer-driven formula that calculates the popularity of a Web site by noting, among other things, how many sites link to it. The Google examples also, of course, points to yet another development: the ‘industrialization’ of the link.” (TSUI; TUROW, 2008, p. 3).

Links ar capable to exporse our social trails “they are the basic forces that relate creative works to on another (…) Any discussion of how to promote a healthy society offline as well as online must therefore pay close attention to links.[and] (…) what new research approaches are needed to track the variou considerations that drive the creation fo particular links and no others, map the various vectorf of knowledge and power that digital connections establish, and undestand how people interact with the connection possibilities tha call out to them in various media?” (4-5)

And about network authority, it brings some peculiar research like Seth Finkelstein’s work:

“Finkelstein’s topic is the arcane [secret and mysterious and therefore difficult to understand] of search engine algorithms. Using a number of provocative case studies as illustrations, he worries that Internet users misread Google rankings as indications of authority – and aothoritativeness – rather than as simply the indications of popularity that they really are. He notes that the comon search assumptions push minority views downward in the rankings, and he suggests that links paly a primarily coservative role: ‘Rather than subvert hierarchy, it’s much more likely thet hyperlinks (and associated popularity algorithms) relfect existing hierarchies’. Thus, he cautions that society must realize that ‘business that mine data for popularity’ such as the major search engines, “are not a model for civil socitey”. (9)

And about links and business: Tom Hespos asserts that:

” There are millions of convesations taking place right now on the Internet – on blogs, social networks, bulletin boards, and other Internet communities (…) and he points that firms sucha s Nielsen, Cymfony, and Techonorati have built ways for marketers to ‘listen to these conversations’ about their brands. In keeping with this, he exhorts marketers to find more and more ways to have potential custumers come to them through links, instead of continuing to try to push old as formats at them.” (11)

This are some discussions emerged form the book, I hope we could talk about then!

DIMANTAS, Hernani. (2003) Marketing hacker: a revolução dos mercados. Rio de Janeiro: Garamond.
______.(2006). Linkania: a sociedade da colaboração.
LATOUR, Bruno. (2005). Reassembling the social: an introduction to actor-network theory. New York: Oxford University Press.
TSUI, Lokman; TUROW, Joseph. (Ed.) (2008) The hyperlinked society: questioning connections in the digital age. Ann Arbor, MI: The University of Michigan Press.

Seminário sobre Informação na Internet – 2008 – IBICT

Esse foi o painel e a apresentação que achei mais interessante:

Painel 5 – Políticas Nacionais de Conteúdos Digitais

Enzo Abbagliati Boils – chileno – Título: A Biblioteca Pública como espaço para a geração colaborativa e comunitária de conteúdo local digital – Gestão Participativa. (Essa palestra foi muito interessante). Pergunta: Deve uma biblioteca pública promover a geração de conteúdo local pela comunidade e público local? Incorporar e trabalhar com a comunidade? Citou exemplos de difusão de patrimônio cultural do Chile. Programa BiblioRedes. Atualmente as bibliotecas do Chile adquiriram recursos adicionais através de projetos apresentados pela comunidade e ainda estabeleceram parcerias interessantes inclusive com fundação bill e melinda Gates. Foram criados espaços de interação: Chat. No Chile as políticas de acesso estão implantadas nas Bibliotecas públicas que abrigam metade dos infocentros de projetos de inclusão digital do governo. 82% das pessoas que atendem estão abaixo da linha de pobreza estabelecida no país. Na biblioteca: capacitação das pessoas para publicarem conteúdo digital cultural na web. Contando a história local. Esses conteúdos “culturais locais” alcançam os primeiros acessos no Google. Referência: The deepenning Dibide Van Dijk – Identidades na Era Digital. Yochai Benkler: A riqueza das redes. Definição dos temos de produtividade. Las Nuevas redes como espacios de poder distribuído: Davi de Ugarte. Rede centralizada, rede descentralizada, rede distribuída. A criação de conteúdo local auxilia na apropriação da tecnologia social. Participação na tomada de decisões, elemento revolucionário, permite a conversação.

Ubiquity and Public Accountability in Web 2.0

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Diferença e Repetição – Gilles Deleuze

DELEUZE, Gilles. (1988). Diferença e repetição. Tradução: Luiz Orlandi, Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal.

Esse livro é a tese de doutorado do autor e a data da primeira publicação é de 1968.
Nele, Deleuze trata da inovação segundo a teoria sociológica de Gabriel Tarde e ondas de repetição através das quais, pela confluência de fatores, emerge a idéia.

Na Introdução:

Mas o conceito de diferença (Idéia) não se reduz a uma diferença conceitual, assim como a essência positiva da repetição não se reduz a uma diferença sem conceito“. (60) Grifo do autor.

“Na realidade, enquanto se inscreve a diferença no conceito em geral, não se tem nenhuma Idéia singular da diferença, permanecendo-se apenas no elemento de uma diferença já mediatizada pela representação. Encontramo-nos, pois, diante de duas questões: qual é o conceito da diferença – que não se reduz à simples diferença conceitual, mas que exige uma Idéia própria, como uma singularidade na Idéia? Qual é, por outro lado, a essência da repetição – que não se reduz a uma diferença sem conceito, que não se confunde com o caráter aparente dos objetos representados sob um mesmo conceito, mas que, por sua vez, dá testemunho da singularidade como potência da Idéia? O encontro das duas noções, diferença e repetição, não pode ser suposto desde o início, mas deve aparecer graças a interferências e cruzamentos entre estas duas linhas concernentes, uma, à essência da repetição, a outra à idéia de diferença.” (DELEUZE, 1988, p. 61).