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Posts Tagged ‘multidão’

Biopolítica em Foucault e a Constituição do Campo Político em Spinoza

October 16, 2009 Leave a comment

O estudo sobre a biopolítica realizado em Foucault (2008, p. 28) começa por meio de uma metodologia que se poderia denominar de Genealogia da Forma de Governar ao analisar as influências do mercantilismo no que ele denomina por razão de Estado durante a Idade Média e os séculos XVI e XVIII.

“O que é governar? Governar segundo o princípio da razão de Estado é fazer que o Estado possa se tornar sólido e permanente, que possa se tornar rico, que possa se tornar forte diante de tudo o que pode destruí-lo”. (FOUCAULT, 2008, p. 6).

Pensando dessa maneira o autor chega às característica de especificidade e pluralidade do Estado, afirmando o não lugar do estado nas configurações de classe, mais adequado a uma realidade específica e descontínua que não estaria atrelada às formas constituídas de poder como igreja ou o governo do rei, mas como um lugar independente, um campo político que é plural.

Ao mencionar essa configuração do Estado, o autor coloca a definição do mesmo atrelada às relações que o constróem. Algo bem parecido com a constituição do campo política em Spinoza (1996). O governo da Multitudo se faz a partir de acordos, e o Imperium se constitui a partir não de um governo estabelecido, mas muito mais de um movimento de ação em comum, independente do regime político estabelecido.

“Os homens operam constituindo um indivíduo coletivo ou complexo, a multitudo, e instituem o imperium ou (…) “o corpo e a mente do poder” (totis imperii corpus et mens) dotado de toda potência que seus agentes lhe derem: o imperium é o direito natural comum ou coletivo cuja ação é o ânimo e a mente da massa. Ao ser instituído como poder soberano, esse direito coletivo implica simultaneamente um processo de distribuição de poderes, determinando as duas formas universais do campo político e as formas particulares dos regimes políticos.” ( CHAUÍ, 2003, p. 167).

Foucault vai falar do mercantilismo ou do liberalismo pois eles abriram espaços dentro das configurações históricas das formas de governo do Estado para um domínio econômico e de leis da economia sobrepujantes ao do governo propriamente dito.

A emergência de uma economia política sob a fachada de um “governo frugal” vem das relações dos atores, da sua maneira de se comportar e viver em relações complexas e entrelaçadas com os processos econômicos.

Fontes:

FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978 – 1979). Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
CHAUÍ, Marilena. Política em espinoza. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SPINOZA, Baruch de. Tratado político. Tradução Manuel Castro. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

Sobre a Moral e as Redes – Sobre a Moral e a Multidão

October 15, 2009 Leave a comment

A Instituição do Campo Político em Spinoza e a Instituição da Moral – Do Governo por Interesses

Hipótese: A generosidade vem dos interesses estabelecidos em cada acordo realizado entre os atores na rede. Apesar da escala denunciada dos movimentos ser grande, é preciso olhar o pequeno grupo para termos a noção do movimento da multidão. Olhar de Gabriel Tarde (2003/1893) A moral não é dada, ela nasce no movimento de conversação e disseminação da multidão em rede.

Histórico: pesquisa com adolescentes no Programa de Inclusão Digital Acessa São Paulo revelou em 2008 que os meninos se organizam, forma grupos segundo interesses comuns. A moral nasce de um interesse em comum, ela é construída no acordo. Cada grupo tem sua moral criada e regras próprias.

Fala da arte

Fala da imaginação

Fala da influência da imaginação no agente, no ato e na obra (contraponto a Platão)

“A imaginação inverte a ordem natural, transformando os produtos da ação em modelos universais abstratos, postos como valores e medidas das ações concretas. Numa palavra, a imaginação, nascida da causalidade inadequada, põe essa causalidade como norma do real e da ação: põe a heterotonomia do agente como princípio da ação e inventa a moral, orientada por fins (perfeição-imperfeição; bem-mal; justo-injusto; pecado-obediência). A perspectiva moralizante se espalha para as demais atividades humanas: na arte, coloca como fins beleza, harmonia, ordem; na política, inventa os paradigmas da boa sociedade, do bom governante, a teoria dos seis regimes e, na busca do ‘melhor’, inventa a excelência do regime misto, o tirano como mau governante, o rebelde como mau súdito e a noção de ‘bem comum’ como paz advinda da hierarquia e da repressão dos desejos. É o moralismo normativo e finalista que impede, afinal, o surgimento do discurso político (…)”
(CHAUÍ, 2003, p. 153).

Spinoza vê o movimento dos afetos nos seres humanos como algo que os caracteriza essencialmente como humanos. Negar essa característica, seja na política, seja na educação é desnaturalizar o homem da sua própria condição.

Há ao se estabelecer campos políticos por Hobbes ou por Maquiavel tentativas em associar virtude, fortuna ao governante, como se estivesse em um campo livre dos afetos: paixões, ódios, disputas, ciúmes.

“A crítica espinosana não só indica que o novo discurso político situa-se à distância do ‘espelho dos príncipes’, mas ainda descortina a causa imaginária desse gênero político que, ao desnaturalizar as paixões e ignorar os homens tais como são, preferindo homens que em parte algum existem, concebe a virtude como racionalidade orientada por fins e, portanto, como obediência a normas ou como dever e obrigação. Em outras palavras, a abertura do Tratado Político indica os dois efeitos do imaginário da contigência e da vontade livre: de um lado, a imagem do homem vicioso, e de outro, como sua sombra necessária, a moral e a política do dever-ser, isto é, da virtude como regra e norma”. (CHAUÍ, 2003, p. 156).

Excertos a partir de:

CHAUÍ, Marilena. Política em espinoza. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

SPINOZA, Baruch de. Tratado político. Tradução Manuel Castro. São Paulo: Nova Cultural, 1996

TARDE, Gabriel. Monadologia e sociologia. Tradução: Tiago Seixas Themudo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003/1893.

Can we all Govern? Get involved…

August 25, 2009 Leave a comment

<Doing things together…><this is a very profound change> I’m talking about unbowedly and reconstitute about what is <<government>>

Pesando na organização histórica da multidão, e na transformação do conceito de multidão por meio das ferramentas de comunicação a partir das três ultimas décadas do século XX, entretanto essa noção de pertencer a uma multidão por meio de ações comunicativas começa a fazer parte do imaginário coletivo apenas a partir da primeira década do século XXI. Noções de empoderamento e insegurança.

<<more people can say more things to more people than ever in history and that still growing enormously>>
<<what else could we create?>>

<Doing things together…><this is a very profound change>

O Conceito de Trabalho Imaterial – Michael Hardt & Toni Negri (2005)

February 24, 2009 Leave a comment

HARDT, Michael; NEGRI, Antônio. Multidão: guerra e democracia na era do imperio. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2005.

“A cena contemporânea do trabalho e da produção, como explicaremos, está sendo transformada sob a hegemonia do trabalho imaterial, ou seja, trabalho que produz produtos imateriais, como a informação, o conhecimento, idéias, imagens, relacionamentos e afetos. Isto não significa que não exista mais uma classe operária industrial trabalhando em máquinas com suas mãos calejadas ou que não existam mais trabalhadores agrícolas cultivando o solo. Não quer dizer nem mesmo que tenha diminuído em caráter global a quantidade desses trabalhadores. Na realidade, os trabalhadores envolvidos basicamente na produção imaterial constituem uma pequena minoria do conjunto global. O que isto significa, na verdade, é que as qualidades e as características da produção imaterial tendem hoje a tranformar as outras formas de trabalho e mesmo a sociedade como um todo. Algumas dessas novas características decididamente não são bem-vindas. Quando nossas idéias e nossos afetos, nossas emoções, são postos para trabalhar, por exemplo, sujeitando-se assim, de uma nova maneira, às ordens do patrão, frequentemente vivenciamos novas e intensas formas de violação ou alienação. Além disso, as condições contratuais e materiais do trabalho imaterial que tendem a se disseminar por todo o mercado de trabalho vêm tornando mais precária a posição do trabalho de maneira geral. Existe por exemplo a tendência, em várias forma de trabalho imaterial, para o obscurecimento da distinção entre horários de trabalho e de não trabalhar, estendendo o dia de trabalho indefinidamente até ocupar toda a vida, e uma outra tendência para o funcionamento do trabalho imaterial sem contratos estáveis de longo prazo, assumindo com isto a posição precária de se tornar flexível (realizar várias tarefas) e móvel (estar constantemente mudando de lugar). Certas características do trabalho imaterial, que tendem a transformar outras formas de trabalho, apresentam um enome potencial para a transformação social positiva. (Paradoxalmente, essas característica positivas são o lado dinâmico das consquências negativas). Em primeiro lugar, o trabalho imaterial tende a sair do mundo limitado do terreno estritamente econômico, envolvendo-se na produção e na reprodução geral da sociedade como um todo. A produção de idéias, conhecimentos e afetos, por exemplo, não cria apenas meis através dos quais a sociedade é formada e sustentada; esse trabalho imaterial também produz diretamente relações sociais. O trabalho imaterial é biopolítico na media em que se orienta para a criação de formas de vida social; já não tende, portanto, a limitar-se ao econômico, tornando-se também imediatamente uma força social, cultural e política. Em última análise, em termos filosóficos, a produção envolvida aqui é a produção de subjetividade, a criação e a reprodução de novas subjetividades na sociedade. Quem somos, como encaramos o mundo, como interagimos uns com os outros: tudo isto é criado através dessa produção biopolítica e social. Em segundo lugar, o trabalho imateiral tende a assumir a forma social de redes baseada na comunicação, na colaboração e nas relações afetivas. O trabalho imaterial só pode ser realizado em comum, e está cada vez mais inventando novas redes independentes de cooperação através das quais produzir. Se sua capacidade de investir e transformar todos os aspectos da sociedade e sua forma em redes colaborativas são duas características extraordinariamente poderosas que o trabalho imaterial vem disseminando para outras formas de trabalho. Essas características podem servir como um esboço preliminar da composição social da multidão que hoje anima os movimentos de resistência ao estado global permanente de guerra.” (HARDT; NEGRI, 2005, p. 100-101).

Excertos Bruno Latour

November 12, 2008 Leave a comment

Trechos retirados de: LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Tradução Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34.

DAS MULTIDÕES

“Como dar  às multidões ilegítimas uma representação, uma linhagem, um estado civil? Como explorar esta terra incógnita que, entretanto, nos é tão familiar? Como ir do mundo dos objetos ou dos sujeitos àquilo que chamei de quase-objeto ou quase-sujeitos? Como passar da natureza transcendente/imanente a esta natureza, igualmente real, mas extraída do laboratório e depois transformada em realidade exterior? Como deslizar da sociedade imanente/transcendente rumo aos coletivos humanos e de não-humanos? (…) Como atingir as redes, estes seres de topologia tão curiosa e de ontologia ainda mais estranha, nos quais residem as capacidades de conectar e de separar, ou seja, de produzir o espaço e o tempo? Como pensar o Império do Centro? Já disse, precisamos traçar ao mesmo tempo a dimensão moderna e a dimensão não moderna, desdobrar a latitude e a longitude que irão permitir o traçado de mapas adaptados ao trabalho de mediação e purificação.” [página 76].

“Ocorre, com as grandes massas da natureza e da sociedade, o mesmo que ocorre com os continentes resfriados na tectônica das placas. Se desejamos compreender seu movimento, precisamos descer nessas fendas em chamas onde o magma irrompe e a partir do qual serão produzidas, muito mais tarde e mais longe, por resfriamento e empilhamento progressivo, as duas placas continentais sobre as quais nossos pés estão firmemente fixados. Nós também devemos descer e aproximar-nos desses lugares onde são criados os mistos que irão tornar-se, muito mais tarde, coisas naturais ou sociais.” [página 86]

DO IMPÉRIO DO MEIO

“Se estamos tentando desdobrar o Império do Meio em si, somos obrigados a inverter a forma geral das explicações. O ponto de clivagem e encontro torna-se o ponto de partida. As explicações não partem mais das formas puras em direção aos fenômenos, mas sim do centro em direção aos extremos. Estes últimos não são mais o ponto de apoio da realidade, mas sim resultados provisórios e parciais. As camadas dos intermediários são substituídas por cadeias de mediadores, de acordo com o modelo proposto por Antoine Hennion, que serve como base para este ensaio (Hennion, 1991). (…) O que mostra o quanto o sentido da palavra mediação difere do sentido de intermediário ou de mediador – definido como aquilo que difunde ou desloca um trabalho de produção ou de criação que dele escaparia (Debray, 1991).” [página 77].

“(…) este deslizamento dos extremos rumo ao centro e para baixo, que faz girar tanto o objeto quanto o sujeito em torno da prática dos quase-objetos e dos mediadores. Não precisamos apoiar nossas explicações nestas duas formas puras, o objeto ou o sujeito-sociedade, já que elas são, ao contrário, resultados parciais e purificados da prática central, a única que nos interessa. São produto do craking purificador, e não sua matéria-prima. A natureza gira, de fato, mas não ao redor do sujeito-sociedade. Ela gira em torno do coletivo produtor de coisas e de homens. O sujeito gira, de fato, mas não em torno da natureza. Ele é obtido a partir do coletivo produtor de homens e de coisas. O Império do Centro se encontra, enfim, representado. As naturezas e sociedades são os seus satélites.” [página 78].

“Natureza e sociedade não são mais os termos explicativos, mas sim aquilo que requer uma explicação conjunta Latour (1989).

SOBRE MODERNIDADE

“Os modernos desenvolveram quatro repertórios diferentes, que acreditavam ser incompatíveis, para acomodar a proliferação dos quase-objetos. O primeiro repertório trata da realidade exterior de uma natureza da qual não somos mestres, que existe fora de nós e que não conta nem com nossas paixões nem com nosso desejo, ainda que sejamos capazes de mobilizá-la e de construí-la. O segundo repertório trata do laço social, daquilo que liga os humanos entre si, das paixões e desejos que nos agitam, das forças personificadas que estruturam a sociedade – a qual nos ultrapassa, ainda que seja construída por nós. O terceiro trata da significação e do sentido, dos actantes que compõem as histórias que contamos uns aos outros, das provas que eles enfrentam, das aventuras que atravessam, dos tropos e dos gêneros que os organizam, das grandes narrativas que nos dominam infinitamente, ainda que sejam simultaneamente texto e discurso. O quarto, enfim, fala do ‘Ser’, e desconstrói aquilo de que nos esquecemos quando nos preocupamos apenas com o entre, ainda que a diferença do Ser esteja distribuída pelos entes, co-extensivos à sua própria existência.

Estes recursos só são incompatíveis na versão oficial da Constituição. Na prática, é difícil distinguir os quatro. Misturamos, sem o menor pudor, nossos desejos com as coisas, o sentido com o social, o coletivo com as narrativas. A partir do momento em que seguimos de perto qualquer quase-objeto, este nos parece algumas vezes como coisa, outras como narrativa, outras ainda como laço social, sem nunca reduzir-se a um simples ente.” [página 87].

“Nada prova que estes recursos continuem a ser incompatíveis quando passamos das essências aos acontecimentos, da purificação à mediação, da dimensão moderna à dimensão não moderna, da revolução à contra-revolução copernicana. Vamos dizer apenas que os quase-objetos quase-sujeitos traçam redes. São reais, bem reais, e nós humanos não os criamos. Mas são coletivos, uma vez que nos ligam uns aos outros, que circulam por nossas mãos e nos definem por sua própria circulação. São discursivos, portanto, narrados, históricos, dotados de sentimento e povoados de actantes com formas autônomas. São instáveis e arriscados, existenciais e portadores de ser. Esta ligação dos quatro repertórios nos permite construir uma morada vasta o bastante para que nela abriguemos o Império do Centro, a verdadeira morada comum do mundo não moderno e, ao mesmo tempo, de sua Constituição. [página 88].

DOS INTERMEDIÁRIOS AOS MEDIADORES

“Em seguida, através da multiplicação dos intermediários, deveríamos aproximar aquilo que separamos. Verbos revelar, representar, materializar, compreensão, interpretação, aceitação…

“A sociedade sempre foi composta pelos mesmos recursos, mesmos interesses, mesmas paixões. Na perspectiva moderna, a natureza e a sociedade permitam a explicação porque elas, em si, não precisam ser explicadas. Existem, é claro, os intermediários cujo papel é justamente o de criar uma ligação entre as duas, mas estes só podem criar as ligações porque, justamente, não possuem qualquer dignidade ontológica. Nada fazem além de transportar, veicular, deslocar a potência dos dois únicos seres reais, natureza e sociedade. Claro, podem transportar mal, podem ser infiéis ou obtusos. Mas esta falta de fidelidade não lhes dá nenhuma importância própria, uma vez que é ela quem prova, pelo contrário, seu estatudo de intremediário. Eles não possuem competência original. Na pior das hipóteses, são bestas ou escravos, e na melhor, servidores leais.” [página 79].

“Tornam-se mediadores, ou seja atores dotados da capacidade de traduzir aquilo que eles transportam, de redefini-lo, desdobrá-lo, e também traí-lo. Os servos tornaram-se cidadãos livres.” [página 80].

“A ontologia dos mediadores, portanto, possui uma geometria variável. O que Sartre dizia dos humanos, que sua existência precede sua essência, é válido para todos os actantes, a elasticidade do ar, a sociedade, a matéria e a consciência. (…) A essência do vácuo é a trajetória que liga todas elas. [página 84]

Subjetivação, crenças e desejos

April 28, 2008 Leave a comment

A fenomenologia clínica  dos modos de  subjetivação agenciados como fluxos de crenças e desejos, individuais e sociais segundo Gabriel Tarde:

“O tímido é a própria figura da oposição social elementar, aquela em que a bifurcação da crença e do desejo existe, mas é vazia como hesitação, isto é, como um momento de indecisão absoluta e paralisante entre duas correntes imitativas a seguir. Enquanto isso, o louco se aproxima da figura do inventor, uma vez que os dois partilham um posição mais supra-social do que social e trabalhom, a partir dessa posição minoritária, para provocar o desencadeamento de novos fluxos de crenças e desejos.

(…)Tarde apresenta a figura do idiota como aquela em que os processos de subjetivação sequer existem, em razão da ausência de bifurcações entre a crença e o desejo; a figura do sonâmbulo como aquela dos processos de assujeitamento dócil e crédulo às séries sociais de imitação; a figura do tímido como aquela com que os fluxos da crença e de desejo se binarizam, se obstacularizam e desencadeiam processos de dessubjetivação; e a do louco como aquela em que os fluxos de crença e desejo se conectam para dar lugar a novos processos de subjetivação. ”

VARGAS, Eduardo Viana. (2000) Antes tarde do que nunca: Gabriel Tarde e a emergência das ciências sociais. Rio de Janeiro: ContraCapa.

O que são crenças e desejos?

March 31, 2008 Leave a comment

“La répétition, l’opposition, l’adaptation: ce sont là, je le répète, les trois clefs différentes dont la science fait usage pour ouvrir les arcanes de l’univers. Elle recherche, avant tout, non pas précisement les causes, mais les lois de la r´pétition, les lois de l’opposition, les lois de l’adaptation des phénomènes”(Tarde: 1907:11)

A vida social como uma distribuição mutante, um fluxo de crenças e desejos que pode ser medido quantitativamente: “(…) sob as múltiplas formas que s revestem e sob os objetos heterogêneos que se atribuem, crenças e desejos são constantes e universais, uniformes e homogêneos, susceptíveis de crescer ou diminuir, mas não de variar qualitativamente, sendo, portanto, não só comunicáveis, transmissíveis de um ponto a outro da escala social como também, em princípio mensuráveis, quantificáveis. É isso o que têm de mais característico” . (Vargas, 2000:229)

A idéia de repetição em Tarde vem da imitação que é a propagação do fluxo e do desejo a um número que tende a ser infinito de pessoas, já a oposição marca a intervenção de um fluxo ou onda sobre a outra.

Abordar a repetição como um fenômeno social não diminui a importância da diferença nos estudos sociais, marco inicial da análise sociológica do autor no final do séc. XVIII. Há aqui a importância também da motivação para garantir o movimento de imitação que sempre acontece mediado.

TARDE, Gabriel. (2001) Les lois de l’imitation. 12ª ed. Paris: Les empêcheurs de penser en rond/Éditions du Seuil. Vol. I, Second Série.

___________. (1907) Les lois sociales. Paris: Félix Alcan.

VARGAS, Eduardo Viana. (2000) Antes tarde do que nunca: Gabriel Tarde e a emergência das ciências sociais. Rio de Janeiro. Contra Capa.